Telefones SOS: amigoterapia ou psicoterapia?

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1. Introdução histórica

I. 1 Os primórdios

É no início do século XX (1906) que nos Estados Unidos da América se começa a esboçar um movimento vocacionado para o apoio emocional em situações de crise, por cidadãos comuns, voluntários, através de um telefone. O National Save-A-Life League, com a orientação de Harry M. Warren, foi o primeiro centro com uma linha com esses fins, e sob os auspícios da Igreja. Mas foi a partir da fundação do Centro de Prevenção do Suicídio de Los Angeles, em 1958, por E. Shneidman, N. Farberow e R.Litman, com o patrocínio do National Institute for Mental Health (NIMH) que Centros de Prevenção do Suicídio com o mesmo modelo de actuação se difundiram e tornaram conhecidos nos Estados Unidos da América.
Em 1928, o filantropo wilhelm Borner funda em Viena o primeiro centro SOS europeu, ao qual estaria ligado Vicktor Frankl, o homem da logoterapia, e que influenciaria a criação de outros centros na Hungria, na antiga Checoslováquia e na Alemanha.
Com a chegada dos Nazis ao poder muitos destes centros SOS foram encerrados. Durante o período nazi o suicídio era olhado como um “processo de purificação” do povo, através do qual “os indivíduos inferiores” se destruíam.
Mais tarde, em 1955, Erwin Ringel reabre o centro de Viena com a colaboração da Caritas. A Escola de Viena estaria na origem da International Association for Suicide Prevention (IASP), fundada em 1960.
Entretanto, um programa para suporte em crise fora introduzido na Alemanha em 1950. Consistia num serviço de telefone em funcionamento 24 horas por dia e suportado pela Igreja Católica e Protestante. Em 1980 existiam 68 destes centros na Alemanha que posteriormente se expandiram para os países escandinavos.

No Reino Unido as linhas telefónicas de ajuda tiveram o seu início em 1953, fruto do sonho de um homem, Chad Varah, psicoterapêuta e padre anglicano, Reitor da Igreja Londrina de St. Stephen Wallbrook.

Chad Varah, após assistir ao serviço fúnebre de uma jovem de 13 anos, que se suicidou aquando do seu primeiro período menstrual, por julgar ter uma doença grave, e alguns anos mais tarde, por constatar a ocorrência de vários suicídios por semana em Londres, pensou em fazer algo para apoiar os potenciais suicidas, gente sofrida, solitária, carregando desesperanças ou falta de sentido para a vida. Decidiu, então, afixar à porta da sua Igreja um letreiro com um convite, “se pensa suicidar-se, toque a campainha”, revelando uma incondicional disponibilidade para escutar e ajudar os que cansados da vida, consideravam a morte.

Como psicoterapeuta, tinha constatado que, por vezes, antes de chegarem á sua presença e enquanto esperavam na sala e conversavam, as pessoas se sentiam melhor, mais aliviadas do desespero e da angústia que as tinha conduzido até ali. Percebeu então, que frequentemente, era apenas necessário encontrarem alguém com disponibilidade para as escutar com tranquilidade.

Considerou que o anonimato e a confidencialidade eram importantes, donde, o melhor meio para escutar o outro, como um amigo, seria uma linha telefónica que tivesse um número de fácil memorização.

Com a colaboração dos amigos, a quem tinha recorrido quando os pedidos de ajuda aumentaram, instalou esse Telefone (MAN 9000) na cave da sua Igreja. O grupo que se reunia neste local, foi crescendo tendo dado origem aos Samaritans. Foram os jornalistas, que ao divulgarem o serviço nos jornais, o apelidaram de “bom Samaritano”, dada a obra importante de ajuda ao próximo, que realizavam.

Dar apoio, através de um telefone era uma ideia simples, que não necessitava de grandes meios e podia ser assumida pelo cidadão comum, sensível ao sofrimento do outro. Por outro lado, Chad Varah e os Samaritans consideravam que se às pessoas que pensavam em suicídio fosse dada a possibilidade de falar e serem escutados por alguém, isso poderia fazer a diferença entre escolher viver ou morrer. Foi isto que atraiu e congregou um grupo de voluntários que se organizou e passou fronteiras. Durante muitos anos este movimento teve como principal consultor o suicidologista Inglês Erwin Stengel, amigo pessoal do fundador.

Chad, assim chamado com carinho pelos milhares de voluntários dos centros SOS, actualmente com 88 anos, tem dedicado a sua vida a estas ideias simples e ao desenvolvimento da sua obra.

I.2 Expansão

Os centros de ajuda telefónica dos Samaritans proliferaram, quer no Reino Unido, quer por todo o mundo e em 1974 Chad Varah fundou a organização Befrienders International para congregar todos os centros internacionais, permanecendo os Samaritans, no Reino Unido. Com os Befrienders, pretendeu-se criar um organismo, cujo principal papel fosse desenvolver um movimento de voluntários com acção na prevenção do suicídio e que, por outro lado, apoiasse do ponto de vista técnico e organizacional, as Linhas Telefónicas de Ajuda a nível internacional.
Presentemente estão em actividade 357 centros que formam e alimentam uma corrente de afecto que envolve 41 países dos cinco continentes. O telefone é o principal meio através do qual prestam assistência, mas também dão apoio por carta, encontro face a face e alguns centros possibilitam o contacto por correio eletrónico.
Ainda na década de 50 e a nível mundial, surgem outras organizações com os mesmos objectivos e princípios e práticas semelhantes. Destacam-se a Federação Internacional dos Serviços de Telefones de Emergência (IFOTES – Federation des Services de Secours par Téléphone) que congrega diversos centros de telefones de ajuda em todo o Mundo. Pertence a esta federação, por exemplo o centro Voz Amiga de Lisboa e o Telefone de La Esperanza de Espanha, fundado em 1971, por iniciativa de um benemérito, posteriormente reconhecido pelo Estado como instituição de utilidade pública. Hoje estão em funcionamento 26 centros. Em França o SOS Amitié existe há 40 anos e tem espalhado pelo país 48 centros. Nos Estados Unidos existem, por exemplo, a Life Line e a Save-a-Life, entre outras.

I. 3 Carta de princípios e práticas

O primeiro objectivo dos centros é estarem disponíveis 24h por dia para dar suporte emocional a todos os que pensam acabar com a vida.
Os voluntários procuram também aliviar a solidão, o desespero e a tristeza, escutando todos aqueles que sentem não ter mais ninguém a quem recorrer que os possa compreender e aceitar.
Este apoio emocional estabelece-se através do diálogo com alguém, voluntário (escutante), de forma anónima (duplo anonimato) e confidencial, por telefone, mas também por carta, encontro face a face ou correio electrónico. Nem todos os centros dispõem deste conjunto de meios sendo o telefone o mais comum.
Os voluntários estão proibidos de impor as suas convicções ou de influenciar quem os procura, no que diz respeito a política, filosofia ou religião. Não fazem julgamentos, não dão conselhos.
Em circunstâncias apropriadas, o apelante pode ser encorajado a considerar a procura de ajuda profissional, para além do suporte oferecido pelo centro.
A selecção, formação e treino do grupo de voluntários é orientada pelos voluntários mais experientes e por consultores técnicos da área da psicologia ou psiquiatria.

II. Os Centros SOS em Portugal

Em Portugal existem 5 linhas de telefone orientadas para o apoio na solidão, em situações de crise e aos potenciais suicidas, sendo as Linhas do Porto, de Coimbra, de Viseu e a Estudante associadas dos Befrienders International.
Em 1978 entra em actividade em Lisboa o primeiro centro, SOS Voz Amiga (21 354 45 45), que teve como seu grande impulsionador e fundador o Psiquiatra Fragoso Mendes e seus colaboradores. Actualmente ligado à Liga Portuguesa de Higiene e Saúde Mental, tem como consultores o psiquiatra Marco Paulino e Luís Pratts e está associado à IFOTES, de quem recebe apoio técnico e orientação.
No Porto surge em 1981 o Telefone da Amizade, constituído em Associação particular de solidariedade (Associação Telefone da Amizade). Manteve durante os primeiros anos uma equipa técnica formada por psicólogos e psiquiatras, onde se destacaram Pedro Lopes Santos e José Soares Pacheco que tinham como funções a formação dos voluntários e a supervisão do serviço prestado.
Em 1994 o SOS – Palavra Amiga entra em funcionamento, em Viseu, tendo, desde essa data, a direcção do psiquiatra Fidalgo de Freitas e dois anos depois, em 1996, o SOS Estudante, ligado à Associação Académica de Coimbra, que pretende atingir sobretudo, a população estudantil.
O Telefone SOS-Telefone Amigo de Coimbra iniciou a sua actividade em 15 de Novembro de 1986, sendo seu co-fundador e primeiro Director, durante 9 anos, Carlos Saraiva. Desde há 4 anos com orientação da primeira autora. Começou por atender das 7 da tarde à uma da madrugada, alargando posteriormente ao horário actual, das 17 horas à uma da manhã. Nos 14 anos de existência, O SOS Amigo nunca interrompeu o seu serviço. Dá apoio por telefone, carta, estando em estudo a utilização no futuro de correio electrónico
Nos 14 anos de actividade o Telefone SOS-Telefone Amigo já atendeu perto de 50 mil chamadas. Em média recebe 3000 pedidos de ajuda por ano.
Dos últimos dados recolhidos da sua actividade constata-se que:
– É ao fim de semana que se observa maior procura do serviço (46%);
– Mais de 50% das chamadas surgem no período das 21 – 1h da manhã;
– Homens e mulheres procuram a ajuda do telefone em igual percentagem;
– Considerando a idade, 80% dos apelantes têm entre 25-65 anos, (37% entre 25-40 anos e 44% entre 41-65 anos);
– A maioria dos apelantes são solteiros, separados ou divorciados e exercem uma profissão;
– A grande maioria dos apelantes não vive só (67%). Este dado leva-nos a pensar que a solidão nem sempre advém do facto de se viver só. Resulta frequentemente da falta de comunicação com aqueles com quem se vive. É uma solidão acompanhada;
– Como principais motivos do apelo encontram-se: a solidão (32%), os problemas familiares, os problemas conjugais e o luto.
– 6% das chamadas abordavam directamente o suicídio e o risco de suicídio era elevado. Nestes, 6% estão incluídas as pessoas em risco iminente de suicídio. No entanto, em cerca de 30% das chamadas, apesar de as pessoas não a iniciarem referindo este tema acabam por fazê-lo, revelando que já alguma vez pensaram ou tentaram o suicídio ou que mantêm frequentemente essas ideias.

O Telefone SOS – Telefone Amigo organizou em Coimbra as Jornadas da Solidão em 1993 e 1994, procurando desta forma dar a conhecer à comunidade o trabalho dos centros SOS em Portugal. Neste fórum, com carácter inovador, participaram para além do escutante anónimo, o público em geral e a comunidade científica estudiosa da problemática da solidão e o seu impacto na sociedade actual.
Toda a actividade do centro, desde o atendimento, a questões organizativas, de formação e administrativas, se deve ao voluntariado. Os voluntários são pessoas anónimas, solidárias e generosas que consideram que a sua vida só faz sentido se derem algum do seu tempo para atenuar o sofrimento do outro, mas que, pelas características do Serviço que prestam, não podem saber qual o alcance da sua ajuda, mas para os quais são suficientes algumas palavras de desabafo proferidas no final da chamada, “muito obrigado! … ajudou-me muito” “agradeço ter-me ouvido” “sem o vosso apoio tudo seria mais difícil” etc. Ou excepcionalmente, de forma anónima, na revista XIS de 13 de Maio de 2000, o agradecimento público emocionante de alguém que ligou há 2 anos e que desta forma quis testemunhar o quanto foi importante na sua vida, uma chamada de 20 minutos para o SOS Amigo:
“… Aquela conversa de 20 minutos mudou radicalmente a minha vida. Dei comigo a repetir mentalmente a conversa. Chorei ainda mas de alívio, de desabafo. O efeito de me sentir ouvido, “amado” por alguém, mesmo através do telefone, teve os seus frutos, os seus efeitos.
….
Como agradecer a alguém que nos salvou a Vida?”

III Encontro

A abordagem utilizada nesta linhas privilegia os fundamentos das relações de ajuda de H. Porter (1950) e de C. Rogers (1951, 1961), a compreensão empática, a aceitação incondicional do outro, a não directividade. Transmitindo, de forma autêntica, preocupação, interesse, tolerância e respeito pela pessoa e pelo seu sofrimento. Esta escuta empática permite criar proximidade. Daniel Sampaio afirma que “a tarefa essencial junto de uma pessoa em risco de suicídio consiste em criar proximidade”. Pretende-se também, que a pessoa se centre menos nos factos e mais nos sentimentos e emoções, procurando o escutante ajudá-la a reconhecê-los e a ser capaz de os verbalizar, conduzindo, se possível, á sua clarificação. O voluntário sabe, que partilhar emoções e mágoas, sem receios de críticas ou juízos morais, ajuda a atenuá-las e que falar ajuda a encontrar formas de lidar com os problemas. “O que se pretende nesse momento singular do contacto apelante- escutante, é criar um canal de comunicação entre dois seres humanos: “estou aqui amigo” (Carlos Saraiva)
Mas como o fazer e até onde pode ir a intervenção nestas linhas telefónicas? Amigoterapia ou psicoterapia?

Telefonar contém o significado de comunicar, de um comportamento de procura de ajuda, o sinal de desespero, perturbação emocional que retrata sentimentos complexos como rejeição, solidão, medo, culpa, vergonha. No caso particular da ideação suicida, telefonar significa ambivalência, o balancear entre as razões para viver e as razões para morrer. Todo o escutante de um Telefone S.O.S. sabe que isso representa um crédito de esperança. E se o apelante conseguir descrever o seu sofrimento mais a possível ideação suicida se aproxima da moldura de um problema de vida, ou seja, mais susceptível a uma abordagem racional. Todavia, algumas etapas são aconselháveis, as duas primeiras primordialmente de amigoterapia e as restantes de aproximação à psicoterapia:

III.1 Empatia – acolher serenamente, de voz calma e afável, respeitando silêncios, choros ou sufocos, sem quaisquer críticas ou juízos de valor, numa postura tranquila, como a oferta de uma tela em branco onde o pintor pudesse livremente dar azo ao que lhe vai na alma. Sem certos ou errados, sem perfeitos ou imperfeitos. O primeiro minuto é essencial para se ganhar ou se perder a possibilidade de ajuda ao apelante. Uma grande contenção é imprescindível, até por que o protagonista é o apelante, não o escutante. E saber ouvir, o primeiro passo para o acolhimento, é uma arte e uma sabedoria. O objectivo é ver com os olhos do outro, sentir com o coração do outro, num compartilhar solidário. É essencial que esse fluxo de afecto se comece a instalar lentamente. Se necessário para facilitar a comunicação, o escutante pode mesmo dizer o seu nome sem exigir em troca a identificação do apelante. Frequentemente são usados nomes fictícios de parte a parte.

III. 2. Verbalização – deixar falar livremente o apelante, mesmo se a forma ou o conteúdo do pensamento parecem desconexos ou confusos. É compreensível que a intensidade das reacções emocionais não permita clarificar o pensamento segundo um fio condutor lógico e racional. Nesta etapa só são desejáveis da parte do escutante palavras ou frases curtas de encorajamento ao prosseguir da narração do sofrimento do escutante. Instalado um clima de confiança, o apelante já não só aborda o conflito que no imediato o atormenta como vai passo a passo saltando de episódio em episódio da sua vida. Agora mais liberto, menos angustiado, encontrou alguém que o ouve e o aceita tal como é. Alguém que não o julga, não o condena. E isso pacifica o apelante, ao ponto de muitas vezes ser o bastante para uma reconciliação com a vida, pelo menos momentaneamente. Neste encontro sublime de duas pessoas, quando surge o evoluir da verbalização do sentir para o exercício do pensar tal significa que o apelante procura um entendimento para um problema do seu dia-a-dia. Ou seja, a leitura do desespero, por exemplo a ideação suicida, passa a estar para além do patamar biológico. Afinal, existe um comportamento, um problema que envolve humanos. É precisamente esta maturação psicológica que pode fornecer ao escutante outras ferramentas de operacionalidade para lá da sábia passividade inicial. Ele pode introduzir com subtileza algumas questões, quase sempre na interrogativa, a partir das matérias e das informações trazidas pelo apelante.

III.3 Intervenção

Resolução de problemas – viver sem problemas é uma falácia porque tal situação não existe. Esta mensagem deve ser transmitida no sentido de que o importante é a procura de soluções ou cenários alternativos. O facto do apelante conseguir contar um problema pessoal não só lhe permite esbater o sofrimento mas também inspira o escutante a propor outros ângulos de visão. Um dos aspectos interessantes do diálogo escutante-apelante é o recurso a provérbios populares de entendimento comum. Não sendo de autoria nem do escutante nem do apelante provêm de sabedorias antigas que passam de pais para filhos. É esta particularidade que lhe atribui o sinal de sagrado inquestionável, vinda de um pai eterno, e a poderosa função de uma utilidade reflexiva aplicável ao quotidiano. “Não há rosas sem espinhos” é um bom exemplo de um ditado popular que contraria a ilusão de que é possível viver sem problemas. Afinal, junto à beleza das pétalas coloridas irrompem os picos ameaçadores.

– Modificação de pensamentos e atitudes radicais – levar a compreender que entre situações extremadas, de tudo ou nada, de preto ou branco, podem existir outras intermédias. Por isso, a preferência pelo uso da linguagem no condicional, menos absoluta, facilita o compromisso. A crispação dói bem mais que a negociação. É favorecendo a visão de equilíbrios que o escutante combate o pensamento dicotómico frequente em muitos dos apelantes. E novamente os provérbios: “No meio está a virtude”; “Nem oito nem oitenta”; “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”.

– O pensamento reorientado para o futuro – é sempre uma possibilidade da parte do escutante estimular o apelante a imaginar aquilo que pode acontecer depois de determinado comportamento ou atitude, designadamente quando existem vinculações interpessoais. Trata-se de um exercício intelectual, cognitivo, similar de um psicodrama espacial vivenciado pelo apelante. Assim, pode ser mais perceptível o conhecimento das reacções de terceiros; é o caso específico do apelante que ameaça suicidar-se. Donde, em condições normais, consegue estabelecer um cenário consequente à sua morte hipotética, esperando-se alguma ressonância afectiva que devolva o senso crítico para aquele comportamento suicidário imaginado.

– Flexibilizar a rigidez – o orgulho excessivo não permite grande margem para a tolerância. Se for possível que o apelante se ponha no lugar do outro, pela chamada troca de papéis, é de esperar uma qualquer interpretação alternativa. Uma das artes de comunicação relacionadas com o incremento da flexibilização é levar o obstinado a incutir a dúvida e o hesitante a incutir a certeza. Por outro lado, se o apelante perceber que hostilidade gera hostilidade é admissível um espaço para a mudança.

– Lutar contra a desesperança – sentimento de um pessimismo prolongado, a falta de esperança deve ser reduzida à dimensão de um momento. Na verdade, depois da noite escura, quantas vezes tida como tenebrosa, vem o dia luminoso “depois da tempestade vem a bonança”. Se o apelante tiver oportunidade de recordar episódios do seu passado, seguramente que reencontrará momentos felizes. Talvez tenha sido capaz de terminar qualquer curso, ser pai, ter feito uma viagem de sonho. Assim perceberá que na vida também há momentos para tudo. Que não deve confundir a árvore com a floresta. “ “A esperança é a última coisa a morrer”, “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe” diz a sabedoria popular.

II. 4. Acompanhamento – no caso específico do apelante com ideação suicida consistente e não ideação de morte passiva, para além da intervenção propriamente dita, compete ao escutante tentar vincular o apelante para um novo contacto no dia seguinte. Um compromisso entre dois seres humanos. A partir de agora o apelante não está mais só. Assim se diminui o risco suicida e se esbate a intensidade da crise emocional. E como de costume, ao fim de algum tempo e umas noites de sono alcançará um novo alento.

IV. Em Conclusão – Os Telefones S.O.S. surgiram há cerca de 50 anos com o objectivo primordial de prevenir o suicídio. Os estudos sobre a eficácia destes centros de atendimento na redução das taxas de suicídio têm se revelado controversos e contraditórios. Se esse objectivo não é atingível, o amparo em crises de solidão e desespero parece indiscutível e meritório e através desta acção reduzir a probabilidade de um acto suicida não letal. Todavia, a proliferação de linhas S.O.S. em Portugal pode traduzir, numa leitura mais sociológica, falências de diversos sistemas de suporte tradicionais na comunidade, desde a família à religião. A individualização excessiva proporcionada no século XX e a inerente cultura de um narcisismo afastam as pessoas de uma dinâmica de grupo. O recurso aos Telefones S.O.S. é uma das raras possibilidades de acolhimento imediato para um determinado tipo de pessoas inquietas sem confidentes próximos ou que pretendem manter o anonimato. A postura clássica de orientação não-directiva rogeriana mantém-se como a mais indicada dentro das técnicas de entrevista dos Telefones S.O.S., pelo menos a nível dos Centros filiados nos Samaritanos. Por outro lado as atitudes comunicacionais de Porter permitem compreender as subtilezas da comunicação e os diversos patamares de interpretação. Todavia, como vimos algumas das propostas das terapias cognitivas parecem interessantes, mesmo para a ideação suicida.

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