É possível prevenir o suicídio ?

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Carlos Braz Saraiva

(adapt. de texto previamente publicado em Turbulências (Ed. Audimprensa, 1995, pp. 79-85)

Esta é uma das perguntas mais angustiantes que pode ser colocada à psiquiatria contemporânea. No caso de Portugal, a resposta torna-se ainda mais complexa num país com um milhão de alcoólicos, 400 mil caçadores, “farmácias caseiras” generalizadas e onde ainda se morre por pesticidas, às vezes por engano! A existência de tais factores, quer isolados quer em associação, representa um risco acrescido para a ocorrência de suicídios. De facto, algo vai mal quando temos uma das mais elevadas taxas de suicídio no sexo masculino, acima dos 45 anos, a sul de Santarém. Os números são particularmente chocantes para os idosos do Baixo Alentejo, num contraste marcado com o que acontece a norte do Tejo, como nas Beiras, Grande Porto, Minho ou Trás-os-Montes, onde felizmente os números são menos preocupantes.

Numa brevíssima volta pela História, o suicídio foi sempre acompanhado por sentimentos de ignomínia, associado a ideias de loucura, crime, sacrifício, culpa, vergonha ou pecado. Albert Camus ensaiou em O Mito de Sísifo a síntese das sínteses ao dizer que só há um verdadeiro problema filosófico: a questão do suicídio. Acto tolerado, compreendido, mesmo estimulado em circunstâncias de excepção, exemplificadas no suicídio de filósofos e monges, generais derrotados em combate, piras funerárias de viúvas hindus, harakiri do código dos samurais, pilotos kamikaze da II Grande Guerra, bombistas palestinianos, etc

Também os suicídios pela honra ou por amor foram mais profusamente ilustrados do Renascimento à Reforma, como em Shakespeare no drama passional de Romeu e Julieta. No século XVIII, Montesquieu e Rousseau procuraram razões mais sociológicas, expurgando o suicídio de considerações teológicas. A Revolução Francesa reflectiria esta nova orientação ao despenalizar na lei “os crimes cometidos pelo próprio sobre si mesmo”, afinal o suicídio. Todavia, noutros países o suicídio seria crime até ao século XX, como por exemplo aconteceu em Inglaterra até 1961, antes da publicação do Mental Health Act.
O nosso país que foi um dos pioneiros a acabar com a escravatura também o foi a não condenar o suicida frustrado. Desde 1886 que apenas o incitamento ou ajuda são passíveis de punição, com o pormenor de no último Código Penal (1995) surgir um novo tipo de crime, a propaganda do suicídio.

E como se posicionou a Igreja católica ao longo dos séculos? A partir do Concílio de Braga em 562 os suicidas deixaram de ter funeral e sepultura cristã. Em 693 o Concílio de Toledo doutrinaria que todos os sobreviventes de tentativas de suicídio deveriam ser excomungados. Estas posturas acompanharam os tempos até ao século XX, como se pode ler ainda no actual Catecismo, mesmo às portas do Novo Milénio. Apesar disso, parece existir alguma tolerância e flexibilidade da Igreja católica, designadamente após o Papa Bento XV (1918) ter admitido a insanidade mental dos suicidas. Este facto associado também à possibilidade de um arrependimento à hora da morte poderia assim permitir missa e outros ritos tradicionais no funeral católico. Estava aberto o caminho às excepções.

E qual o papel dos mass media? A comunicação social primeiro deixou de ignorar o fenómeno, depois tornou-se sensacionalista e finalmente começou a perceber a sua força como eventual modelo de novos suicídios. Em 1974 Phillips publicou um trabalho célebre sobre o efeito da sugestão através dos jornais. Compilou um lista de histórias de suicídio que foram caixa de primeira página no New York Times entre 1946 e 1968 e verificou que havia um pico de suicídios após a divulgação dessas notícias. Este fenómeno ficou conhecido por “Efeito Werther”, nome de um herói de um livro de Goethe (1774) que se suicidou com um tiro por causa de um amor não correspondido. Livro esse que acabaria por ser proibido em alguns países da Europa, porquanto muitos jovens românticos se identificaram perigosamente com o protagonista. Aliás, ainda não há muito tempo, em alguns países, outros livros pretensamente apologéticos do suicídio seriam retirados do circuito editorial, de que é exemplo Le Suicide – Mode d´Emploi de Guillon e Bonniec. É precisamente por tudo isto que compete à comunicação social não glorificar ou pormenorizar os comportamentos suicidários, para uma melhor prevenção. Na verdade, existem pessoas demasiado fragilizadas, vulneráveis à sugestão, ou mesmo psicopatologicamente afectadas, que poderão de um momento para o outro activar impulsos de auto-destruição, perante uma história suicida recheada de detalhes e aspectos mais íntimos, com maior risco de identificação.
O caso da menina que terá introduzido um pesticida num pacote de leite e foi manchete nos jornais e na televisão em Outubro de 1994, é um bom exemplo de um possível contágio suicidário. O que deveria ter sido uma não notícia acabaria por alcançar uma grande mediatização. A “guerra do leite”, com todo o cortejo de especulação, mais ou menos fantasiosa, perversa ou ridícula, não respeitou uma família onde uma jovem que estava a sofrer apenas quis gritar: “Ajudem-me que não aguento mais!” Portanto, nunca é demais a insistência, aliás de acordo com as normas da Organização Mundial de Saúde para a comunicação social, que todas as notícias de suicídios deverão ser sucintas, em páginas interiores, sem fotos, omitindo o método usado e o local, principalmente quando este possa corresponder a um sítio de “culto suicida”, como certos precipícios, pontes, árvores, poços, etc

E que mais pode fazer a comunidade? Compete-lhe também actuar sobre armas de fogo, pesticidas e medicamentos, quer dificultando o acesso quer exercendo alguma pedagogia. Por exemplo, parece-me de uma incrível insensatez a facilidade com que indivíduos alcoólicos podem ter carta de caçador ou adquirir uma pistola. São também conhecidas as mortes brutais pelo “remédio do escaravelho” ou outros pesticidas usados na agricultura. É reconhecida a leviandade na compra de tais produtos, apesar da legislação existente, e a irresponsabilidade das condições de armazenagem. Se o acesso estiver dificultado é admissível que o impulso suicida entretanto se esbata. Lamentável é ainda que existam pessoas que se envenenem de uma forma ingénua por ignorância do efeito tóxico letal. Acabam por morrer, às vezes ao fim de semanas de sofrimento, numa situação em que na realidade desejariam viver…
Do mesmo modo, as “farmácias caseiras”, tão comuns em Portugal, ao alcance de um qualquer desesperado, são uma grave negligência das famílias, que nem sempre conhecem a força letal de certos medicamentos, quando tomados em sobredosagem.
Porém, visto que na maioria dos casos a essência do comportamento suicidário é apelativa, seria vantajoso que as pessoas em risco soubessem aonde recorrer quando se olham como potenciais protagonistas da própria morte. Médicos de família, serviços de psiquiatria, telefones SOS, deveriam ter acessos fáceis, simplificados, sem burocracias, na medida em que muitos desses indivíduos não têm capacidade de decisão nem auto-domínio para procurar ajuda. Por outro lado, nem sempre a comunicação verbal surge e às vezes as queixas apresentam-se mais pela linguagem corporal, através de dores, isolamento ou insónia. Tais sinais de alarme mais confirmam a impreparação das famílias para lidar com estas situações.
Perante uma ideação suicida, o recurso aos telefones SOS (Voz Amiga, Telefone da Amizade, Telefone Amigo, Palavra Amiga, SOS Estudante, etc) é uma possibilidade excelente. Todos estes centros visam o companheirismo, a partilha, para alguém em crise de solidão ou desespero. A ajuda oferece um clima de abertura, dentro dos princípios da confidencialidade e anonimato, que permite novas reflexões sobre os problemas do quotidiano. Os telefones SOS, para além de acolherem todas as mágoas, procuram que o apelante descubra por ele novas reformulações que serenem a angústia. Outros pontos de vista, outras alternativas.

Depois do papel da comunidade e dos mass media na prevenção do suicídio, perguntar-se-á: e a Escola? Não será exagerado afirmar que um país espelha a Escola que tem. Um adolescente deve ser mais do que uma enciclopédia ambulante pronta a abrir-se para logo se fechar. Ele deve saber brincar, divertir-se, entusiasmar-se. A primeira pergunta que toda a gente faz a um jovem é: “Tens tido boas notas?”; ninguém pergunta se é feliz, se tem amigos, se pratica desporto, afinal se gosta de viver! As palavras que martelam a mente são ganhar, competir, realizar, etc. No filme de aviões “Ases Indomáveis”, que certamente todos os jovens já viram, com Tom Cruise no protagonista, um dos pilotos Top Gun avisa que só há um lugar para o quadro de honra, o primeiro. Em ar de chacota alguém responde que os outros ficam numa lista na casa de banho das senhoras…
É o tudo ou nada, aquilo que as famílias americanas – e não só – sabem incutir aos seus filhos: “Be number one”. Porque dos números dois ninguém vai falar! Não é por acaso que insucessos escolares, contrariando gravemente as expectativas demasiado elevadas de pais e educadores, poderão levar a tentativas de suicídio, a que não são alheios os estímulos frenéticos para uma competição feroz, por vezes cruel, que a sociedade actual tem vindo a fabricar. É desejável fazer passar a mensagem que depois da tempestade vem a bonança. E promover equilíbrios em vez de de posturas radicais, ao estilo de preto ou branco, vida ou morte.

E o que tem feito o poder político? Quando se é velho e solitário, com a esperança há muito perdida, compete à sociedade apoiar com a ternura possível e os meios mais dignos esses idosos, frequentemente minados por doenças crónicas incapacitantes, impossibilitados de estarem autónomos, abandonados porque deixaram de “produzir”. No limiar da sobrevivência, comendo pão, sopa e pouco mais, sem dinheiro para os medicamentos, em casas degradadas, sem aquecimento, por vezes sem telefone, não espanta que sejam os idosos quem mais se suicida.
Outro aspecto que deveria merecer particular atenção do poder político é o problema do homem adulto que fica desempregado, com a família a seu cargo, numa situação que persiste e para a qual não vislumbra alternativa. Em certos casos tal corresponde a uma baixa do estatuto social, com um perigoso isolamento que poderá conduzir a uma qualquer revolta ou à renúncia à vida. Por isso, a política social de um governo atento ao bem estar dos seus cidadãos deverá também contemplar a prevenção do suicídio, sem o que a sua missão de solidariedade ficará vergonhosamente mutilada.

E a saúde? As campanhas contra o alcoolismo e demais toxicodependências, como a heroína, cocaína ou ectasy, desde que correctamente elaboradas, com mensagens apropriadas às populações-alvo, são muito importantes na prevenção do suicídio. Mas isso não basta. É imprescindível continuar a formação dos médicos de família, no sentido do reconhecimento e despiste precoce das patologias mais comuns subjacentes a um suicida, de que são exemplos a depressão, a esquizofrenia, os distúrbios da personalidade, o alcoolismo e toda a problemática do mundo das “drogas”. Existe, contudo, uma “ditadura” biológica, como uma barreira, para lá da qual não se atravessa. Há doentes cujo estado é de tal modo grave que mecanismos psicológicos complexos como a culpa fazem acreditar que só a morte pelo suicídio é conceptualizada no horizonte. Necessidade de fuga, expiação, ou busca de martírio? Naturalmente que estas pessoas carecem de cuidados especiais. O ideal será dar-lhes amparo e tratá-las.

O suicídio pode obedecer a uma linguagem de comunicação demasiado simbólica ou secreta, donde o apelo, quando de tal se trata, poder não ser compreendido. Inspirado em Ortega y Gasset, dir-se-ia que o Homem, tido como são ou como doente, terá sempre um Eu, uma Circunstância e um Mistério.

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